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26/07/2008

=SEM TÍTULO = 1

Dentro do que posso farei todo o impossível.
Dou o meu sangue,
Mas quero meu coração
Dou minha vida,
Mas quero a minha alma
Dou meus nervos,
Mas quero minhas idéias
Não quero mais ser irrestrita,
Pago o preço,
Mas levo a mercadoria
05/06/1994
Eu não quero ombros fortes
Que sustentem o peso da minha cabeça.
Eu não vagarei mais em busca do carinho
Que a vida me negou.
Cansei de ser carente
Cansei de seguir
Mas não quero acalentar ninguém
Nem quero pessoas a me seguir

05/06/1994
Marcia Vicente

A LUTA

Você está dormindo.
Seus sonhos não habito.
Hoje não fui te buscar.
Deixei seu espírito em paz.
Morro nessa guerra surda, suja
De não te encontrar nunca,
do jeito que é preciso.
Prisioneiro de delírios,
Te vejo amordaçada,
Sem que eu nada possa fazer.
Exilada de corpo, tenho às mãos
a luta desarmada do querer,
E isto é pouco, muito pouco.

24/11/1994
Carlos Paez

TANTO FAZ

Morrer, estar vivo, tanto faz
A gente nunca faz o que quer
Nunca se pode ser o que é.
Aqui pode-se escolher
Lá somente recolher

24/11/1994

ALMA

Deixa a minha mente em paz, alma !
Deixa meu corpo livre.
Por ser prisioneira de músculos e tendões,
Não me aprisione às suas paixões.
Deixe-me respirar
Não me faça pensar
Esses pensamentos que não constroem...

24/11/1994
Carlos Paez

DEPOIS

Depois, depois pode não haver nada
Pode acontecer tudo
Pode ser que não exista depois
Pode ser que a terra gele
Pode ser que o coração mele
Depois pode ter vazio,
Pode ter arrependimento
Depois pode – se não fazer
O que deveria ter sido feito antes
Depois pode dar errado
Depois pode dar certo
Fazer depois, na fazer...
Depois é um antes que não deu certo...
16/11/1994

ANTES

Correr, correr muito
Chegar à alegria
Antes que o drama comece
Antes que o êxtase acabe
Ser, antes do dissolver da matéria
Antes que se modifique a essência
Nadar antes que a fragata afunde.
Antes nadar por prazer que se mover por desespero
Viver antes que a vida acabe,
Pois que entre cada corrida, obrigados somos a parar.
Correr, correr então pra quê?
16/11/1994

Matinal

É tão bonito ver a madrugada e seus humanos apressados
A umidade das horas
a úmida humanidade em seus olhos inchados.
Os seus fantasmas que se recolhem
Seus pesadelos que adormecem.
O calafrio do despertar
Esse momento mágico de timidez.
De claridade atirada e pálidas estrelas,
Um duelo de luz posto que,
a escuridão se retira vencida e cabisbaixa
É sereno o despertar do dia
porque úmidos de orvalho, os corações sedentos
À vida que se impõe são desatentos.

Humberto Senna
26/05/1994

Lápide

De amor vivemos a vida inteira para entender e quando entendemos estamos gastos de mais para que alguém nos ame.
Vida madrasta!
O mundo não envelhece e assimila todos os conhecimentos que alcançamos e o brinde que levamos – uma placa de mármore na qual não podemos escrever nossas próprias idéias.
Somos o que podemos dentro do que nos julgam e morremos com idéias alheias pesando num esqueleto que precisamos abandonar . E tudo o que fomos de real serve para dar vida a plantas mudas.
Conclusão: a palavra é um erro



02/12/1994
Claude Saint Laurent

SEM TÍTULO

Eu tenho inveja dos que se foram.
Pelo menos eles estão nalguma parte que me é desconhecida.
Eles, daqui já sabem, têm a vantagem dos que não têm mais que viver.
Acordar todos os dias é tão chato.
Ter dias e noites,
sóis e luas para nos reger é tão monótono...
E aqui nem se pode voar....

24-25/11/1994

O Piano

Sabe? O corpo me atrapalha.
Pesa-me ter de carrega-lo.
Me asfixia.
Parece uma gaiola,
parece uma cela minúscula,
apertada, sem ar.
O cérebro parece demasiado pequeno
para abrigar informações que estão
em alguma parte de mim, no entanto ele,
limitado não tem espaço para descobri-las.

Eu sei muita coisa que não posso dizer
não as digo porque as palavras não exprimem.
Parece que existe outro alguém
morando dentro de mim que não encontra
local por onde sair, exprimir, se expor.
É como estar diante de um piano,
com a melodia na mente e não poder toca–lo,
O som não abrange a melodia,
o instrumento não é apropriado.
Ele é o único disponível,
carrega-se este enorme fardo por onde se vai...
Largar o piano? Nunca!
Ele é a derradeira possibilidade de vir a se compor a melodia.
Ele é a esperança de que um dia a música se faça ouvir.
O piano só poderá ser abandonado quando substituído por outro instrumento.
Como identificar-me-ão?
Como saberão que pretendo compor,
manter esse cérebro até que ele se abra,
até que se encontre porta,
a saída por onde escoe
o que vive vivo, acordado,
trancado aqui dentro.

24-25/11/1994

06/07/2008

INSÔNIA FUMANTE


Acordada há 1 cigarro e meio penso...
O que faz o não fumante quando acorda no meio da madrugada abandonado pelo sono? Como ele conta o tempo de insônia se não tiver na cabeceira um relógio?
Pobres não fumantes! Entregues à agonia e à incerteza de não saber que horas são... Tudo para ter um morte tranquila com os pulmões limpos...
Coisa saudável esta!

E como o sono não vem, não tem jeito a curiosidade de saber quantas horas tem, uma sede desértica que não sei se é na mente ou na garganta.
Como qualquer não fumante babaca, vou até a cozinha, olho o relógio e descubro que são 4:30... Então acendo um cigarro.

26/05/2008

=ASSOMBRO=



Esses olhos gigantes, escuros, sofridos
contam-me o que é dor.
Vasculho minha carteira
Encontro nela uma foto
Não encontro dor nos meus olhos
Por mais forte que ela me venha
jamais trazer-me-á o brilho-mártir
que tem o seu olhar
Minha infância não foi boa
queixas como as suas não tenho
Boa ou má ela existiu, fui criança um dia
Tive você
Ela resiste em mim
Um ar jovem e macerado...
Nunca o percebi quando em carne e osso
Onde conseguiu este olhar súplice,
Essa face corada, porém santa
Que as imagens de santos não possuem?

24/11/92

=CURUMIM=


Eu te amei tanto
De riso e pranto
Que de tanto amor
Olhei e não te achei
A vida,
O céu
O dia
As estrelas,
a lua
O sol e seu amanhecer,
Frio e calor,
Eram teu nome.
Mas você curumim,
só brincava
Com os astros,
com a vida
Comigo
18/07/1992

PREDESTINAÇÃO

Como se faz aquele poema que todo mundo admira?
Que vira pagode, samba-canção, seresta, bolero?
E todo mundo dança.
Ainda não nasceu a simples e complexa poesia,
A que acompanha os tempos
Aquela que cresce com todos
Que traz saudade e faz chorar
Não quis Deus que fosse eu, original?

II

EU FUI DÓCIL DEMAIS
OBEDECI À MAMÃE
RESPEITEI OS MAIS VELHOS
AS TRAVESSURAS NUNCA FORAM MALDADES
NUNCA FORAM GRANDES DEMAIS,
MIINHA AMBIÇÃO TAMBÉM NÃO

14/07/1992

13/05/2008

=UNO=




















Ah, o meu amor...

O meu amor é de melação,
de grude, de mão na mão.
O meu amor é de achar linda,

De encontrar predicados,
predicativos, adjetivos.
O meu amor é de priorizar,
Colar,
Deitar a falar,
Deitar e falar,
Amar falando.
De lembrar a toda hora
como amo, o quanto sou amada.

O meu amor é para princesas,
Jamais amei plebéia
Jamais amei a feia
Elas deixam de existir quando amadas
Porque o meu amor é de revigorar,
Restaurar,
Aumentar,
Incentivar

Quando amo,
estou na arquibancada
Gritando e torcendo,
suando e amando
Não faço por ela,
mas sei tudo o que pode fazer
E torço como fanático!
Loucamente,
como se fosse botafoguense
Eles, sim, sabem torcer...
Torcer por amar, por amor...
Viver
O resultado é só uma consequencia
ilógica de um acaso dominante.

O meu amor é de estar junto
Não precisa casar
Mas estar junto,
estar perto,
ser íntimo.

O meu amor não tem etiqueta
Quebra as regras,
amassa a receita
Mas não é um amor mal-educado...
Não é possesivo,
Não é voraz
Nem faminto

O meu amor
Tem fome de idéias e companhia,
Na mesma proporção do sexo e prazer

O meu amor é tarado,
Quer entrar em cada cantinho do ser amado...
Entrar, fazer parte, invadir e só.

Meu amor não se divide
Não se reparte
Fiel como novo cristão
Só se doa pra um.
Tem prazer em dar,
Só se completa doando
E dando-se, completa-se
E dando-se, aprende,
Assimila mais e mais
a arte de mais e mais amar
=Glória, 15-11-2004=

=TEM QUE SER=

Você não vê
E quando vê não entende
O quanto e como eu amo você.
Você desconfia,
não me acredita
Eu só posso te provar
te provando
Te degustando,
Me vivendo.
E pra viver tem que ter sabor
Tem que ser inteiro,
Tem que ser intenso.

=novembro, 2004=

=POSSIBILIDADE=

Eu quero que você
ocupe o meu tempo.
Eu quero que você me ocupe.
Não se preocupe.
Eu quero me ocupar de você.
Eu estou buscando a medida,
o limite da ocupação que você me permitirá
Eu quero que você tome o meu tempo
Eu quero me preocupar com você
Eu quero que você me tome inteira
Mas de qualquer maneira
Invento um jeito de me ocupar de você
Eu já não busco a verdade,
busco a possibilidade.
Não sei o que me será permitido
Mas o que vier será aceito, não duvido
=2004=

= BIPOLAR I =





















Às vezes bate
Uma puta necessidade
de encostar a cabeça num ombro e respirar.

Fechar os olhos e respirar
Deixar estar.

Não quero que nada me façam
Não desejo que lutem por mim
Não preciso que resolvam meus problemas

Só quero respirar


Apoiada num ombro
amigo ou inimigo

Respirar.
Deixar estar.

Chama-se isto carência?
Seria isto cansaço?

Às vezes choro
Às vezes mastigo o choro
Muitas vezes finjo que não o vejo.
E sorrio
E ninguém percebe
O coração afogado,
A alma alagada

De toda forma tudo dá em nada
Não há ninguém tão forte quanto eu
Nem tão frágil
Nem tão doce

E esta verdade amarga
Meus dias
Meus projetos
Meus sonhos
Em troca distribuo o sorriso meigo
Aberto, claro, franco, raramente tímido.
E me jogam migalhas de atenção, de afeição
Antes as recolhia, hoje as abstraio.

Dis-tra-i-o-me

Sempre andei na corda-bamba,
Sempre estive por um fio
Sempre olhei a vida do alto,
balançando,
Perigosamente,
Ciente de não haver lá embaixo,
rede de proteção,
Acreditando que em caso de queda,
esta seria para o alto.

E pela primeira vez, estou eu,
em cima do muro.
Quer saber?
O fio pingente é mais confortável que o muro
O acrobata é herói,
o indeciso não...
Eu sequer estou indecisa

Na indecisão me defino...
Eu escolhi o meu lado,
E a escolha sem atitude é vã...

É preciso escolher e se lançar
Voar, corpo no ar, trapézio no olhar
Mãos na direção certa.
Coração contando
Alma cantando
Voar de olhos fixos no trapézio, no pousar...

Lançar-me confiando é a minha atitude de amor...

= Flamengo, 16-11-2004

= BIPOLAR II =


Eu não sei se estou triste,
se estou tímida
se estou eu mesma.
Às vezes, numa das esquinas
da vida tão tumultuada
de um viver complicado,
posso ter esbarrado comigo mesma...
Um encontro casual
onde de repente nos conhecemos
ao tentar olhar os outros
e vemos o que eles têm
e que não somos.
Para onde eles vão
que não queremos
ou não podemos ir.
Um momento de pausa
da sonora gargalhada
que escancarada,
cede espaço ao sorriso.
E o sorriso, franco e aberto
inibe-se deixando o sorriso tímido.
Tanta decisão, precisão e certeza
mostram-me as minhas indecisões,
vacilações e dúvidas.
Eu, tímida e insegura,
só vou em frente
porque não vejo outra alternativa.
Acredito na vida,
principalmente quando ela me diz não.
Para não ceder ao fracasso,
considero-me sobrevivente.
As dores não me fizeram infeliz.
As tristezas não me deixaram amarga.
Mas fica esta tênue linha
entre tristeza e alegria
que é quase uma dor
A sensação de impotência
que é quase um lamento.
Melancolia.
Mas o sorriso insiste!
E durmo na certeza de que haverá um amanhã.
Que hoje foi um grande dia
porque fiz tudo o que sabia
Me conscientizei do que não podia.
E tem sido assim,
um dia depois do outro
ao longo de longos 40 anos...
Já não olho as pessoas pensando
que se eu fosse elas faria diferente.
Sei que todos fazem o melhor
dentro do que sabem e são.
Já não trago nas mãos ferramentas
para demolir ou construir o mundo,
Apenas tento fazer a minha mísera parte.
Não tento defender-me
opinião ou visão equivocada
que de mim fazem,
Não adianta,
Melhor eu mesma ouvir
que saber que outros ouvirão...
Não tento mais convencer do contrário
ou mostrar que em relação a mim
deveria ser diferente.

Certas coisas ou são ou não são.
Não adianta trazê-las enquanto são novidades
Ou enquanto eu estou novidade
Logo caímos numa rotina...

Certas coisas são ou não são.
Amor, sentimos ou não sentimos,
Ama-se ou não.

Não é preciso, odiar.
O ódio não é o avesso do amor
O ódio é um outro sentimento...

Assim, já não sei o que queria
ou gostaria
Apenas vivo o que é.

Talvez esteja como há muito não me via:
Sozinha e esta solidão me faz companhia,
Acompanho-me de mim mesma e fico,
nem só, nem infeliz, apenas tranqüila.

Não é momento de dar o passo,
Não é hora de ir a lugar algum.
É o momento de viver este momento,
Torná-lo-ei, então, sagrado,
Conciso, preciso e silencioso.
Não há reclamações a fazer.
Há que se observar o que sou eu o que é você.
11 de novembro de 2004 =